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sábado, 2 de junho de 2012

Cavalgando o sonho


Cavalgando o sonho - Nilda Maria Medeiros


Quando nós chegamos montando nossas barraquinhas de lona, aquilo tudo era um matagal só. E a nossa família era grande só em quantidade: era eu, a Rita com sete  anos, mais o Maurício com  cinco, o Fernando com  três, o Leandro com  dois anos, o pai e a mãe. Eu contava oito anos. Santo Deus! Como eu julgava o meu pai um herói, metido naquela guerra de foices e machados, ensinando-me como um homem deve lutar para trazer o pão de cada dia à sua família! Às vezes, ele até pedia aos companheiros que trabalhavam com as motosserras para me ensinarem a lidar com a máquina. E em pouco tempo eu já me exibia como um trabalhador de verdade. Quando os homens paravam para o almoço, sentados em pedaços de troncos de árvores, com seus caldeirões, eu quase que engolia a minha comida sem mastigar, em pé mesmo, para logo correr, pegar a motosserra e arriscar o meu corpinho ainda frágil para aquela missão.
O tempo de descanso era curto, trinta, quarenta minutos, no máximo, e logo retornavam ao batente derrubando tudo. Eu empunhava uma foice novamente, pois já era reconhecido como mais um soldado.
À tardezinha, quando o sol começava a se entristecer, o meu pai gritava fraco e sem parar com o machado: “Dair, vem aqui, mininu.” E eu corria, porque o meu pai era homem nervoso, e gostava de ser atendido rapidamente. “Dair, pega o burro e vai na vila buscá ólio, lingüiça, arroiz... pra sua mãe fazê a janta. E num vai ficá de conversa fiada lá na vila. Óia! Pede pro seu Imilho mandá uma garrafa di pinga pu pai tamém e marcá lá.”
Os oito quilômetros até a vila, mesmo após um dia árduo de trabalho, tornavam-se curtos, pois eu era o vento cavalgando o burro Negrão. Às vezes, eu nem entendia o porquê de correr tanto... E como  eu só via à minha frente o sol empalidecendo a tarde, talvez eu quisesse impedi-lo de ir embora; é que a noite emprestando a lua e as estrelas faz-se muito triste a quem vive numa barraquinha de lona à beira de um córrego e à luz da lamparina.
Logo que eu adentrava a minúscula Silvânia, que fica nos limites urbanos do município de Matão, eu tornava-me um bichinho acuado. E era de olhos cravados no chão que eu entrava no armazém da vila. Mais parecia um barracão...tinha pouca luz, e cheirava a peixe salgado. Eu detestava pedir fiado e, ainda, quase sempre ouvia a fatídica pergunta após ter feito o pedido do meu pai:
—E quem é seu pai? — perguntava o homem de estatura mediana, mais para robusto e de pele meio avermelhada, atrás do balcão, com voz de bravo e sem olhar para mim, pois estava sempre mexendo em dinheiro.
—O João de Deus.
—Ah! O assentado.
Naquele tempo, em 1987, não se ouvia muito a expressão “sem-terra”, e sim “assentado”. Eu morava no assentamento três, numa barraquinha de lona próxima a um córrego; depois fomos construindo em mutirão as casas de pau-a-pique. Quando a nossa ficou pronta, a minha mãe estava com a barriga enorme, prestes a dar à luz o meu quinto irmão, e mesmo assim ela pegava baldes de terra, molhava com água do córrego até virar barro e jogava na parede. Incrível! Ficava bom mesmo! E só aí eu entendi porque o pai pregava umas madeirinhas finas na parede. Bem, deixe-me explicar melhor:
 Primeiramente cortavam-se as árvores e aproveitavam-se os galhos grossos para o esteio e as traves, pois estes davam a armação da casa. As paredes eram construídas com os  galhos mais finos, todos na mesma espessura e tamanho. Esses galhos eram pregados nas traves e fincados no chão um após o outro. Aí é que vinham os galhinhos mais fininhos ainda, que eram pregados horizontalmente. E quando se  jogava o barro e se o aplainava, igualando-o por toda a parede, era como se fosse o reboco.
Minha mãe era mulher caprichosa e corajosa, pois foi longe buscar saibro, barro branco encontrado à beira de rios e minas. Ela o trouxe em várias viagens e passou-o nas paredes, como sendo agora a tinta. As paredes ficaram branquinhas, dando a impressão de limpeza, de novo, de nosso.
No dia seguinte chegou o meu irmão Luciano. O meu pai ficou tão contente que a garrafa de pinga que costumava durar a semana inteira, ele a tomou toda enquanto esperava a chegada do nenê, e depois da chegada também. Antes, ele bebeu por nervosismo, não que ele dissesse, mas percebia-se, pois andava de um lado para o outro, tirava o chapéu como se quisesse aquietar-se e logo em seguida punha o chapéu como se fosse sair.
Era estranho ver aquele homem alto e magro zanzando pela sala. E a cada grito da minha mãe, ele puxava a barba comprida e ruça como se quisesse arrancá-la.
Com a minha mãe, no quarto, havia duas mulheres que se diziam parteiras. Elas vieram socorrer, não dava tempo de levar ao hospital, mesmo porque o único meio de transporte nosso era o Negrão.
A mãezinha havia trabalhado firme aquele dia para deixar a casa limpinha e, quando conseguiu tomar um banho, já sentia as primeiras dores. Ela ainda colocou a mandioca para cozinhar e fazer uma sopa. Estava fria aquela noite! Mas quem tirou a mandioca do fogo e pôs num prato para nós comermos com açúcar foi a minha irmãzinha Rita.
Após muitos gritos que mais pareciam urros, ouvimos o choro do bebê. Meu pai precipitou-se para a porta e uma das mulheres falou alto: “É homem, seu João, outro machinho do saco roxo, como diz o senhor”.
O rosto do meu pai iluminou-se; ele escancarou a boca, mostrando as falhas dos dentes perdidos, e escureceu ainda mais o rosto, não sei se de vergonha por estarem escorrendo lágrimas de seus olhos, ou se de efeito da pinga. Ele era um homem claro, de pele branca, mas  tornara-se  moreno devido ao sol forte. Os olhos verdes também estavam sempre irritados, meio avermelhados devido à poeira. Os cabelos eram fartos, lisos e louros; e isso eu herdei dele, além da coragem e da persistência na busca de um futuro digno e na realização de um sonho.
A nossa sorte era que o governo Montoro mandava cestas de alimentos aos assentados, do contrário poderíamos ter morrido de fome. Hoje, penso em como a realidade era irônica, pois trabalhávamos a terra e não tínhamos comida. Não me queixo daquele governo, pois além de alimentos, também fornecia o calcário, a semente, o adubo. Mas eram só o meu pai e a minha mãe para trabalhar a terra! E foi por essa razão que eu só estudei até a quarta série do primário e fui ajudar os meu pais. Eles voltavam para casa já anoitecendo e saíam para o trabalho antes de o sol nascer. Minha mãe tinha vinte e seis anos, mas aparentava quarenta. Sempre vestindo trapos; os cabelos maltratados. Ela tinha cabelos crespos e os mantinha sempre presos; talvez isso a envelhecesse tanto. A pele era morena, mas um moreno tostado do sol. Não era uma mulher bonita, e não se via nela o menor sinal de vaidade. E eu gostava de olhar para ela...gostava de ser filho dela. Era gostoso passar o dia trabalhando com os dois e, mais gostosas ainda, eram as tardes em que meu pai mandava-me buscar uma ou outra coisa na vila. É que eu amava montar o Negrão. O trajeto até Silvânia era curto demais para a minha única alegria de menino. E um dia, quando eu me deliciava com essa paixão, nos arredores da nossa plantação de arroz, meu pai, agachado e fumando o seu cigarro de palha, acompanhava-me com os olhos em cima do Negrão. Depois de um tempo ele me chamou:
—Dair, ocê gosta de andá nu burru?
—Muito, pai! Gosto muito!
—Mais u pai vai tê qui vendê u Negrão.
Eu fiquei calado.
—Eli tá véi pu aradu, fíi. — tornou o meu pai soltando uma baforada de fumaça: —Amanhã vem um homi vê eli.
Falou e saiu. Eu não vi tristeza na voz do meu pai, mas hoje, posso apostar em como ele sofreu ao me dizer aquilo.
Logo meu pai arranjou um cavalo e ele atendia pelo nome de Segredo. Era um cavalão pampa e passivo. E o nome lhe era justo. Era mesmo um Segredo. Pois numa das minhas idas  a Silvânia, coloquei o pé na virilha do bicho e ele me jogou a uns três metros à frente dele. Relinchou e disparou em seguida. E foi aí que eu me descobri. Mesmo jogado ao chão e sentindo uma dor horrível no braço, pois eu caíra de mau jeito, eu enxerguei a minha vocação. Taí! Eu gostava daquilo...gostava do pulo do bicho e decidi: eu haveria de ser peão de rodeio.
Agora eu já tinha dez anos, mas mesmo assim não tive capacidade de encontrar o Segredo sozinho e precisei da ajuda do meu pai. O velho ficou bravo, mais pelo cavalo ter desaparecido do que pelo meu braço quebrado. Mas quando falei que iria ser peão de rodeio ele ficou orgulhoso, e pude vê-lo inchar-se de contentamento.
—E ocê vai vencê muitu rodeio.
—O senhor acha, pai, que eu dô pra coisa?
—Si ocê puxô seu pai, quandu era mai moçu, vai sê um dus mió.
—Que que eu tenho que fazê, pai!? — perguntei, animadíssimo.
—Primero sará u braçu. Dipois trená bastanti; mais cum coidado! E quando ocê tivé bão memo eu iscrevo ocê lá im Barreto.
Eu treinei muito. Era pintar uma folga e lá estava eu montando em cavalo, boi, mula o que aparecesse. Eu montava no meu sonho, na minha vontade de ser campeão de rodeio. Mas o tempo não espera a gente sonhar e, quando percebi, eu já estava com quinze anos e já tinha mais dois irmãos, o Daniel e o Leonardo; e a pobre da minha mãe abrigava um outro no útero.
 Muitas coisas haviam mudado. Se antes era difícil para os meus pais tratar dos filhos, agora tornara se impossível. O governo da época não dava assistência aos assentados, e o pouco de dinheiro que vinha não chegava às mãos dos escravos da fome. Só ouvíamos falar, nos noticiários da televisão, que o governo do Estado de São Paulo destinara X aos assentados, entretanto diziam os mais velhos que os funcionários dos sindicatos ficavam com o dinheiro dos assentados. O povo passava fome literalmente. Havia até quem roubasse. Era comum entrar em pastos alheios, matar um boi e descarná-lo ali mesmo no lugar. No dia seguinte, o proprietário só encontrava os ossos e o couro.
Como não havia incentivo para a plantação de grãos, os míseros financiamentos concedidos pelo governo e que chegavam às mãos dos assentados acabavam sendo investidos na compra de gado e porcos. O meu pai fazia isso, e era o que nos livrava da fome constante. A cada mês, vendia-se um novilho e pagava-se  a compra no supermercado; e às vezes ainda ficava-se devendo, pois esta fora a fase da URV, lembra?
Eu via o meu pai definhando-se na cachaça por não ter onde trabalhar. Tinha a terra, mas não tinha como plantar. Em casa, um amontoado de crianças e a minha mãe sempre grávida.
Foi por esses tempos que arrumei uma namorada e ela passava a maior parte do tempo corrigindo-me porque eu falava um português caipirão. Então adormeci o meu sonho de peão de rodeio e voltei a estudar. Fui fazer o supletivo à noite. Durante o dia eu cuidava dos animais que ainda restavam, já que o meu pai amanhecia e anoitecia alcoolizado, pois para tomar pinga não precisava mais ir à vila; lá pelos assentamentos um, dois, três, quatro, cinco, seis...foram alastrando-se os botequins de fundo de cozinha. Já que não se plantava mais, a opção era trocar de ramo de negócio. E esses botecos trouxeram muitas discórdias, abandonos, mais fome...
Eu fora cursar a quinta série do supletivo. O prefeito do município de Matão mandava um ônibus buscar os estudantes no assentamento, e isso fora a minha bênção. Um mundo novo abria-se na minha frente: novos amigos, tanto conhecimento e tanta vontade de saber tudo e mais. Pude até supor o porquê de não haver incentivo à plantação de grãos; é que aquelas terras não eram ideais para esse tipo de plantação. Só não entendia, ainda, o motivo da desapropriação de terras que não eram férteis. E me interrogava: “Será que o INCRA não sabia disso?! E foi levado por essas e outras curiosidades que quis saber mais e mais. Eu lia tudo que era noticiário, pois já estava convencido de que mesmo para quem sonha em ser um peão de rodeio era preciso estudar.
Quando concluí a oitava série no supletivo, montei no meu sonho e inscrevi-me no rodeio da cidade de Barretos. Coisa incrível! Menino criado na roça, de repente me vi cercado por um mar de pessoas estranhas gritando e assoviando; e eu no meio, em cima de um touro brabo. Eu ouvia meio atordoado o locutor do rodeio: “É um menino! Menino da nossa região! Menino de braço forte montando o touro Bisantão! E vai sair! Tá saindo! Tá saindo! Seguuuuuuuuuura, peão!!!”
A cada salto parecia que os meus órgãos iam se soltando... eu via o mundo em círculo... meio anestesiado e só voltei a mim quando os gritos e os aplausos cresceram muito; então achei que fosse hora de saltar para cair em pé.
O primeiro lugar da montaria em touro aquele ano foi meu. E o prêmio salvou a minha família. Com o dinheiro, voltamos a trabalhar a terra, a acreditar na vida. O meu pai mandou-me cumprir o meu destino, pois não lhe faltariam soldados para trabalhar a terra, uma vez que ele mesmo formou o seu exército. O seu João de Deus e a dona Lucinda tiveram dez filhos, contando comigo.  Hoje, o Brasil do início do século XXI conta com uma política social bem mais justa; tanto, que eu sou um peão moderno, comunico-me com os meus irmãos pela Internet. Não que eles tenham computador, mas mesmo sendo assentados e estudantes de escolas públicas eles têm acesso aos computadores. Mando e-mails e fotografo todas as minhas vitórias para ilustrar o meu site, que meus maninhos podem acessar e ainda exibir aos seus professores e colegas de turma.
O Assentado que se tornou Sem-Terra, em 2001 é chamado respeitosamente de  Agricultor-Familiar. Só que poucos merecem esse título, pois a grande maioria aproveita-se da situação, manipula o sistema e tira vantagens. Não é à toa que há sem-terra passeando em caminhonetes a diesel, líder de sem-terra se tornando musa nas principais revistas. Já ouvi falar até em empresário passando-se por sem-terra. Muitos deixam de trabalhar a terra e utilizam os financiamentos concedidos pelo governo para comprar carros, animais, pois os financiamentos chegam a ter juros de 1% ao ano e já houve até perdão da dívida àqueles que não puderam pagar.
São poucas as pessoas que sonham com um pedaço de chão para plantar e dali tirar o seu sustento; e é justamente isso que precisa ser mudado: é preciso dar terra a quem quer plantar, a quem quer viver dela, a quem acredita na terra e possa cobrar dos governos uma política agrícola que dê dignidade ao pequeno agricultor. Todo agricultor sonha grande e sempre: sente a chuva, mistura a terra, planta a semente, cultiva a flor e espera o fruto, o fruto: que mata a fome, que engrandece o homem e conforta a alma.

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